"REFÚGIOS"

Meus dias em Cabuyal Parte 2

Meus dias em Cabuyal  Parte 2

aqui vai a segunda parte da viagem à Costa Rica. (a primeira parte está aqui)
DIA 27 à noite…

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inha primeira patrulha noturna. Acredito que neste dia andei cerca de 25km. São 3km até a praia + 2km de patrulha pela manhã + 3km do retorno até a casa + 3km até a praia a noite + uns 10km caminhando até 4 da manhã + 3 km do retorno pra casa. É bastante cansativo fisicamente, porém é uma experiência compensadora.

A patrulha noturna começa às 20:00hs. Temos que usar calças e vestir calçados confortáveis e fechados, que não tenham cores chamativas. As lanternas são com luz vermelha e somente podemos acendê-las quando localizamos algo. As tartarugas não podem, de forma alguma, perceber nossa presença. Caminhamos em dupla de uma ponta a outra da praia. Às 8 da noite é uma total escuridão, já que a lua ainda está baixa. Ela só sobe umas 9 e meia da noite, mas melhora pouco a visibilidade na caminhada. Sinceramente, não sei como minha guia conseguia localizar pegadas na areia naquele breu. Eu, simplesmente a seguia.

Às 22:00 encontramos o primeiro vestígio: pegadas de uma tartaruga negra que saiu do mar, deu de encontro às pedras, virou à esquerda e voltou pro mar. Essa espécie é bastante cuidadosa para desovar. Procura muito um lugar seguro, com areia sequinha. Ela leva bastante tempo para escolher um lugar, cavar, desovar e cobrir o ninho. Camuflamos suas pegadas e continuamos caminhando. Um fato curioso sobre as tartarugas é que elas SEMPRE voltam ao mesmo local. Elas têm um senso de direção impressionante. Se elas saíram do mar ao norte, elas retornam ao norte. Se saíram ao sul, retornam ao sul. Era mais de meia noite, passamos novamente no local onde duas horas antes haviam as pegadas e não deu outra: EXATAMENTE AO LADO das anteriores. Só que, desta vez, ela virou à direita e conseguiu prosseguir onde não haviam pedras.
Assim que percebemos que ela estava caminhando na areia, paramos e ficamos em silêncio. Qualquer barulho ou luz pode fazê-la retornar ao mar e levar mais algumas horas ou dias para sair novamente. Ela caminhou durante muito tempo, fez um trajeto doido, cheio de curvas, até que encontrou um lugar que achava seguro, próximo à vegetação (aliás ela estava com a cara inteira no meio de um arbusto). Só devemos nos aproximar quando ela termina de cavar o ninho, pois ela entra num estado de transe. Quando ela atinge este estágio, pode-se fazer qualquer coisa que ela não se move. Esse animal não é mesmo incrível? Tentei fotografar ela caminhando, mas a bateria acabou na hora que cliquei. Foi uma frustração sem fim! :'(

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Momento em que localizamos as pegadas (na luz vermelha da lanterna)

Finalmente ela começou a cavar. Antes de nos aproximarmos, já combinamos o que cada um vai fazer para que tudo dê certo. Eu deveria me posicionar atrás, onde ela cava. Me deram um contador digital. A cada ovo, tinha que pressioná-lo e ele ia somando. Ajudamos a fofa a fazer o buraco. De vez em quando (quase sempre) ela joga areia na nossa cara. <3
Depois de hoooooooras cavando, ela começou a botar. Seus ovos são do tamanho e coloração dos ovos de galinha. Nesse momento, eu deitei atrás dela e, praticamente, tenho que enfiar a cara no mínimo de vão que sobra pra poder enxergar os ovos caindo. Tive que usar a lanterna de cabeça para poder ficar com as mãos livres para contar os ovos com o aparelho e, com a outra mão, segurava sua nadadeira para ela não atrapalhar minha visão.

É claro que aproveitei para fazer muito carinho nela. Senti a textura da sua pele. Ela é quente, tem cheiro de peixe. Ela tem ossos por dentro da nadadeira que parecem com o dos nossos dedos. Aliás, quando ela cava, faz conchas perfeitas com as nadadeiras que mais parecem mãos. Ao se mover jogando areia, dá umas “reboladinhas” que fazem a gente olhar um pro outro e rir. Enquanto está botando, ela faz uma respiração muito forte. Parece mesmo uma mulher em processo de parto. Não tem como não se encantar com esse animal.

Depois de 30 ovos, colocamos entre eles uma fita de identificação. Enquanto eu contava os ovos, o biólogo (ele sempre é chamado pelo rádio quando aparecem as tartarugas, pois há procedimentos mais profissionais) e sua assistente medem seu casco (tinha mais de 1 metro de comprimento), passam um scanner para localizar alguma plaqueta em seu corpo. Caso não haja, grampeiam uma de identificação em sua nadadeira.

Não podíamos filmar nem fotografar, mas esse video mostra um pouco de como tudo acontece. Algumas pessoas acham que ela chora enquanto está botando os ovos mas, na verdade, elas estão liberando o excesso de sal que consomem da água do mar.

Foram 3 horas desde que a avistamos. Foi um total de 57 ovos. É uma quantidade razoável, mas depois soube que já era sua sétima desova nessa temporada. Acreditamos que ela tinha mais de 35 anos. Anotamos a localização do ninho com base na sinalização demarcada nas árvores e seguimos a patrulha enquanto o biólogo continuou com ela, aguardando até sua volta ao mar. Não encontramos mais nada. Voltamos pra casa em torno de 5 da manhã.

Na hora estamos muito concentrados, mas foi um momento de emoção pra mim. Estava extremamente cansada, mas quando começamos os trabalhos, esqueci o cansaço e só queria aproveitar aquelas horas. É lindo! Só me dei conta de tudo no dia seguinte, quando já tinha descansado. Chorei de felicidade! <3

 

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Patrulha da manhã

DIA 29: Fui novamente a patrulha das 5 manhã, mas nenhuma novidade. Apenas uma bela paisagem.  🙂

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Exumação

A tarde participei de uma exumação. Haviam cerca de 80 ovos e nenhum vingou. No ninho haviam casacas de ovos quebradas, ovos inteiros com embriões mal formados e duas tartaruguinhas já formadas, porém mortas. Tem cheiro de cadáver. É bem triste e paira um silêncio entre o grupo. Frustração demais, afinal são noites de trabalho que se vêem perdidas nessa hora. Contamos as cascas e separamos entre os que estão fecundados, os que foram desenvolvidos e os que nasceram e morreram. Tudo é anotado.

 

 

Algumas fotos dessa tarde:


costarica28 costarica29À noite fiz outra patrulha. O céu foi um show à parte. MUITAS estrelas. Até aquelas mais distantes era possível ver. Estrelas cadentes a qualquer minuto que olhasse pro céu. Conseguimos até ver uma parte da via láctea. Estava demais! 🙂

 

Foi uma noite bem intensa. A patrulha seria das 8 da noite até 4 da manhã do dia seguinte, mas a tartaruga (outra negra) surgiu 1:00 da manhã e só terminou às 5 da manhã. Tudo aconteceu da mesma forma da anterior só que, desta vez, ela desovou 82 ovos. Novamente pude contá-los e segurar suas nadadeiras e, novamente, ficar acariciando. Queria tranquilizá-la, que se sentisse segura para botar seus ovos tranquilamente. Ficamos esperando ela terminar. Quando ela estava voltando pro mar o biólogo a virou com o casco para baixo, para examiná-la. Ela arregalou os olhinhos. Estava com uma carinha de medo e desespero, torcia suas nadadeiras buscando apoio no chão para virar de volta. Chegou até a dar um gemido, tardinha. Apesar de sua fragilidade, elas parecem muito fortes. Difícilmente eu teria forças para segurá-la. Mas logo ele a virou de volta e ela “correu” (se é que isso é possível para uma tartaruga) pro mar. Linda! <3

costarica30 costarica31DIA 30: A tarde fizemos outra exumação. Mais uma frustração, pois nenhum havia se desenvolvido e algumas tartaruguinhas estavam mortas. Nas fotos, um embrião e uma tartaruguinha quase formada. A gema fica dentro de barrigudinha depois que nasce. É sua fonte proteínas que fica reservada para que ela nade muito até encontrar um local seguro no oceano.

 

 

O caminho à tarde, sempre tem surpresas. Desta vez, avistamos um gavião caranguejeira. Tem esse nome justamente porque se alimentar de caranguejos e outros animaizinhos, como as tartaruguinhas, por exemplo. É um animal que dá um pouco de medo. Diferente de outras aves que se amedrontam quando nos vê, essa permanece lá. E ainda fica te encarando. Ou sabia que estava sendo fotografado e resolveu fazer pose! 🙂

Continua aqui!

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