"REFÚGIOS"

Meus dias em Cabuyal Parte 1

Meus dias em Cabuyal  Parte 1
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azia tempo que procurava uma viagem diferente para fazer. Geralmente gosto de opções não convencionais, em que possa conhecer melhor a cultura local. Não curto fazer passeios de turista, pois são sempre previsíveis. Depois de muito procurar, encontrei a viagem perfeita para mim: férias fazendo trabalho voluntário no salvamento de tartarugas marinhas na Costa Rica.

Foi fantástico! Uma das experiências mais emocionantes que já tive. Fiz um breve diário de viagem para lembrar de detalhes que, com o tempo, vou acabar esquecendo. Mas antes, é preciso explicar um pouco sobre a situação atual das tartarugas marinhas:

Elas pertencem a mais antiga linhagem de répteis vivos. Existem há mais de 150 milhões de anos e conseguiram sobreviver a todas as mudanças do planeta. Possuem visão, olfato e audição desenvolvidos e uma impressionante capacidade de orientação. Elas podem viajar o mundo, centenas ou milhares de quilômetros mas sempre, SEMPRE voltam a praia onde nasceram para desovar. Se você acha que o mundo é um ovo, para elas é menor que isso! Elas levam cerca de 30 anos para começar a reproduzir e tem expectativa média de vida de 180 anos.
Mãs…o aquecimento global, a poluição, as redes de pesca e a caça para consumo de sua carne e ovos, tem contribuído para o seu desaparecimento. Todas as espécies de Tartarugas Marinhas estão em grande risco de extinção. A maior e mais ameaçada, a Tartaruga-de-couro ou Baula, como é chamada na Costa Rica, chega a 2 metros e mais de 700 quilos, diminuiu 95% de sua população desde os anos 80. Ocupa hoje o quinto lugar do ranking de animais ameaçados de extinção.

A preservação das tartarugas marinhas é de vital importância para o equilíbrio do ecossistema marinho. Elas são fonte de alimento para predadores marinhos e terrestres e importantes consumidoras de organismos marinhos, como algas, camarões, esponjas e águas-vivas. Como são animais migratórios, as tartarugas se deslocam desde os trópicos até as regiões subpolares, transferindo energia entre ambientes marinhos e terrestres (desova na areia, por exemplo). São verdadeiros engenheiras do ecossistema, devido a sua influência e ação sobre os recifes de coral, bancos de grama marinha e substratos arenosos do fundo oceânico.

A Costa Rica está entre os lugares do mundo onde as tartarugas mais fazem desova. O país faz fronteira ao norte com a Nicarágua, ao leste com o mar do Caribe, ao sudeste com o Panamá e a oeste o Oceano Pacífico. É conhecida como o país com maior biodiversidade do mundo. Ocupa o quinto lugar mundial no índice de Desempenho Ambiental e o primeiro lugar na América.
Mas, infelizmente, ainda há uma grande cultura de consumo da carne e ovos do animal. Saqueadores levam seus ovos e sua carne. Inclusive há cartéis que faturam com esse mercado.

Por isso, há várias ONG’s trabalhando para evitar seu desaparecimento. Na Costa Rica, por exemplo, o Leatherback Trust, que é a ONG onde trabalhei, junto com biólogos e estudantes têm feito um belo trabalho de pesquisa e salvamento dos animais.

Passei 10 dias nas acomodações do grupo. É como uma comunidade, onde todos ajudam em tudo. Além do trabalho com as tartarugas, as pessoas eram selecionadas para cozinhar e cuidar da limpeza do local. A eletricidade é limitada, pois é uma região afastada e um pouco selvagem. Internet, TV e celular não existem. Fiquei totalmente desconectada da minha rotina, o que, talvez, tenha ajudado mais ainda a observar e aproveitar cada momento.

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Época de seca de outubro a maio

DIA 26: Saí de São Paulo no dia 25 à noite. Sete horas depois, desço no Panamá, onde há uma conexão. Duas horas de espera. Novo embarque. Desembarque no Aeroporto de Libéria e uma van está me esperando para mais uma hora de viagem até a Playa Cabuyal. Praticamente 12 horas viajando.
Como toda cidade litorânea, é bem plana, mas está toda cercada por cordilheiras que tem a forma dos famosos vulcões da Costa Rica. O tempo estava quente e bem seco. Chegando mais próximo à praia MUITAS borboletas. De todos os tamanhos e cores. Qualquer poça d’água voam dezenas delas quando passa o carro.
Cheguei na casa. Quem me recebeu foi o biólogo responsável. Ele veio da Austrália e está locado em Cabuyal desde setembro e deve ficar até fevereiro. Trabalha com ele uma costarriquenha e uma mexicana. As outras pessoas da casa são voluntárias que toda semana chegam ou saem. Tem gente de diversos países, como Espanha, Alemanha, Suécia e Estados Unidos. Chris (biólogo australiano) me apresentou as regras da casa e alguns animais que eventualmente posso encontrar: jaguares, crocodilos (já apareceu num lago ao lado da casa), cobras, escorpiões, macacos, além de pássaros das mais diversas espécies.
Como as patrulhas são das 20:00 às 4:00 e outra pela manhã, das 5:00 às 7:00, as pessoas passam a maior parte do dia descansando, pois o trabalho é bem cansativo.

Temps

Alguns dias também um grupo vai a praia durante a tarde fazer escavação/exumação ou, como no caso do meu primeiro dia, participei do TEMPS. Os TEMPS ficam espalhados em 4 pontos distintos da praia (dois no sol e dois na sombra). São 5 tubos plásticos que saem um par de fios (positivo e negativo). Cada par tem um comprimento diferente: 10cm, 25cm, 50cm, 75cm e 100cm. Esses fios ficam enterrados na areia. Ou seja, cada um alcança uma profundidade diferente da areia. Com um aparelho, ligam esses fios (positivo e negativo) e, assim podem saber a temperatura da areia nos horários de maior incidência solar. A temperatura dos ovos influencia o sexo das tartarugas. Acima de 30 graus, fêmeas, abaixo, machos. O TEMPS ajuda nessa pesquisa. A tendência é que, com o aquecimento global, nascerão mais fêmeas e isso também preocupa. Tudo é anotado e encaminhado para os pesquisadores.

Depois do trabalho, nada como desfrutar da minha primeira visita às areias de Cabuyal. Uma praia pequena, bastante vegetação e árvores, tem uma areia muito parecida com as do litoral norte de São Paulo e com um mar com ondas mais baixas e mais calmas. Tem muitas arraias. Aproveitei para fazer algumas fotos. Voltamos antes das 17 horas da tarde, pois o sol baixa cedo e logo um grupo sai para a patrulha noturna.
(foto da esquerda para a direita: Playa Cabuyal, Caranguejo Ermitão, Playa Cabuyal, Playa Cabuyal, Iguana, Caranguejo Aratu vermelho (sic!), Estrada de acesso a praia)

A biodiversidade é o que mais impressiona. Dificilmente fará uma caminhada sem ver alguma espécie nova. Ainda mais nos primeiros dias. 

DIA 27: Fiz minha primeira patrulha da manhã. Acordamos umas 4 e meia da manhã e seguimos os 3 km da estradinha de terra. Ainda é bem escuro, por isso, temos que andar com lanterna. Conforme vai clareando, começam os sons de pássaros e dos macacos. Os macacos (ou mono congo, como são chamados por lá) são uma espécie de bugio e esse era o som que ouvíamos na madrugada e que, a princípio, achei que eram cães ou lobos. (bateu saudade, agora! <3)

Até chegar a praia, já é dia. As cores da manhã era uma mistura de azul, lilás e rosa que refletiam na água fazendo reflexos coloridos de uma beleza de cair o queixo. A lua cheia tinha começado no dia 25 e ainda aparecia pela manhã.
Essa patrulha da manhã consiste e verificar se alguma tartaruga saiu no intervalo da patrulha da madrugada (até 4:00) e o amanhecer. Ou também, para verificar se alguns ovos nasceram ou foram saqueados. Qualquer vestígio de pegadas de tartarugas são camuflados para que saqueadores não localizem os ninhos. Caminhamos de uma ponta a outra da praia, observando pegadas e buracos na areia.
Localizamos uma “cama” (nome que dão ao local onde a tartaruga desova). A areia fica mais alta no local. Para um leigo, é difícil perceber, mas para quem já está acostumado, consegue ver facilmente. Eram pegadas da Tartaruga Negra. Se reconhece pelo tamanho e pela posição das marcas na areia, sempre em paralelo. Camuflamos o local e as pegadas. Aliás, pela manhã, há várias pegadas pela areia: pessoas, aves, cães, caranguejos grandes e pequenos e…tartarugas. Os urubus de cabeça preta ficam de tocaia só esperando aparecer algum alimento (tartaruguinhas, por exemplo, fazem parte de sua refeição). Muitos papagaios aparecem fazendo barulho, assim que o sol nasce. O sul da praia há um muro natural feito de pedras que acaba formando uma praia sem ondas que mais parece um rio. Alguns crocodilos, às vezes, surgem por lá.
Terminamos a patrulha sem mais novidades. Ficamos um pouco mais na praia, curtindo o amanhecer. Só partimos depois das 7:00 da manhã, quando o sol estava com tudo e a temperatura subiu horrores.

Algumas fotos dessa manhã…

Este dia continua com minha primeira patrulha noturna.
Segunda parte disponível aqui ó!

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